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A escrita como construção da pesquisa

27/05/2010

Retirado do baú tecnológico (pen drive), este texto escrito em dezembro de 2009 para disciplina de Pesquisa Qualitativa que cursei na UFRGS. Compartilho com vocês.

A escrita como construção da pesquisa

O ambiente claro e vazio onde posso imaginar qualquer coisa e qualquer projeto na minha mente, olhando paredes brancas que precisam ser marcadas com histórias escritas. Sinto isso, como se estivesse nas páginas da tela do computador, tomada pelo fundo branco do editor de texto. Basta que eu me concentre e diversas imagens, palavras e sons, surgem em minha mente e aparecem como flashes no espaço branco. Tenho o poder de marcar esse espaço. Mas isso não ocorre tão facilmente, são diversos os desafios que me aparecem.  Essa é minha sensação de escrita do trabalho acadêmico.

O produto deste trabalho pode ser visto por outros e lidos. Os olhos treinados de alguns percebem os erros nas regras da montagem que para mim passa despercebido no calor da construção do texto. Penso a cena, escrevo as linhas. Pela linguagem tento traduzir esse pensamento. O sentimento é o de querer sair daquele lugar. Quase uma camisa de força que me prende enquanto eu não dou significado às paredes brancas. E preciso dar sentido e para isso respeitar regras, não falo dos centímetros das páginas 2 , 2,5, 3, …, mas da natureza do conhecimento construído nas hipóteses, insights estruturais e históricos, nas reconstruções individuais ou na subjetividade crítica do conhecimento vivido.

O preenchimento das páginas depende de todo o trabalho pregresso. E mesmo a adoção de paradigmas mais críticos ou/e participativos, em sua representação textual, se limita a linguagem escrita. A linguagem que adoto para expressar os significados, que produzo e reproduzo discursos, de forma consciente ou inconsciente.

A escrita como gênero de pesquisa é limitada na sua descrição. Por essa razão, como pesquisador que quer aproximação com a realidade não posso adotar apenas uma forma de representação do que tomo por significação do real. Com ajuda de Richardson (2005) procuro compreender a escrita como método de estudo resultante do desenvolvimento da ética engajada da ação social e da mudança.

Como Barthes (2004, p. 9) toda enunciação, todo processo de escrita, supõe seu próprio sujeito, e por isso, é resultado de uma construção em determinado contexto.  Sinto que não posso ignorar que as imagens projetadas são reflexos de mim mesma. A minha experiência frente ao contato com a realidade. Não posso ignorar que é a minha voz que fala e constrói os discursos do meu trabalho acadêmico.

As metáforas impossíveis do texto acadêmico. A poesia ou a forma de realismo do absurdo que nos leve a pensar coisas impensadas e assim, possamos construir diálogos, antes dificultados pela separação entre literatura e ciência (BARTHES, 2004, p.4; RICHARDSON, 2005, p.960), entre a prática e a teoria. A Literatura auxilia a projeção da mente além da página branca dos arquivos do software para construção de textos. A metáfora ajuda a percebermos as sensações muitas vezes ausentes no texto acadêmico e dá mais validade para os dados apresentados. Nem sempre conseguimos construir texto que dialoguem dessa forma. Mas o texto pode começar pela simples construção do diário de campo e a tentativa de representar sensações e criar maneiras diversas de apresentação do trabalho acadêmico.

É preciso dar voz aos outros sujeitos que se fazem presentes nos momentos pregressos ao encontro com a página em branco. Dar voz aqueles que fizeram a pesquisa possível e pensar a minha onipresença e onipotência como produtora do texto.  Entender como o ‘outro’ representado pode se sentir nesta representação e lembrar que a interação estabelecida no processo qualitativo de pesquisa social é único, resultado do encontro d pesquisador com o pesquisado no seu contexto.

Não sou escritora, cronista, poeta, meu desempenho não é de artista. Sou alguém em formação. Alguém que antes de colocar significar um trabalho acadêmico busca os significados da escrita, que encontra por alguns instantes um ponto de em que toda a linguagem do alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartem (BORGES, 1999, p. 93). A escrita que preencherá os espaços brancos do editor de texto, sob o cristal da percepção podem enriquecem a visão da realidade construída no trabalho acadêmico.

Referências

BARTHES, R. O Rumor da Língua. São Paulo, Martins Fontes, 2004.

BORGES, Jorge Luis. O aleph. Porto Alegre: Globo, 2001.

RICHARDSON, Laurel; St. PIERRE, Elizabeth A. Writing: a method of inquiry. In: DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S.  (Eds.) The Sage Handbook of Qualitative Research: Third Edition.  London: Sage, 2005. p.959-978

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